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Seleção de textos da poeta Audre Lorde editada por Roxane Gay chega às livrarias dos EUA

Jeber Barreto Venezuela
Seleção de textos da poeta Audre Lorde editada por Roxane Gay chega às livrarias dos EUA

Lorde adorava estar em diálogo, amava pensar com os outros, com seus camaradas e amores. Ela nunca está sozinha na página. Mesmo seus ensaios curtos vêm enfeitadas com longas linhas de reconhecimento aqueles que aguçaram suas ideias. Ela escreve aos ancestrais e às mulheres que encontra nas manchetes do jornal — mulheres desaparecidas, assassinadas, ela dá nome ao maior número delas que pode, o tipo de socorro e cuidado que é visto no trabalho de Saidiya Hartman e Christina Sharpe. Nos “The Cancer Journals”, em que ela documenta o diagnóstico de câncer de mama, ela nota, “Eu Carrego tatuado no meu coração uma lista de nomes das mulheres que não sobreviveram, e há sempre espaço para mais um, o meu.”

PUBLICIDADE The Selected Works of Audre Lorde (ainda sem tradução no Brasil)

Editado e com introdução de Roxane Gay

W.W. Norton & Company

US$ 16,95 (à venda nos EUA)

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Em suas aparições públicas, Audre Lorde se apresentava da mesma maneira: “Sou uma negra, lésbica, mãe, guerreira, porta.” Havia variações ocasionais: “Sou negra, lésbica, mãe, guerreira, poeta fazendo o meu trabalho, vindo perguntar se você está fazendo o seu.” Mas havia sempre essa coletânea de identificantes — e não só porque ela não poderia ser definida por uma palavra apenas. Ela queria, como disse Angela Davis, “desmitistificar a suposição de que esses termos não podem habitar o mesmo espaço: negra e lésbica, lésbica e mãe, mãe e guerreira, guerreira e poeta.”

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Lorde morreu em 1992, aos 58 anos. Ela deixou riquezas: poemas, ensaios, duas memórias definidoras do gênero “Zami” e “The cancer journals”. Seu trabalho é um estuário, um ponto de confluência para todas as identidades, todos os aspectos mantidos tão vigorosamente segregados? Poesia e política, sentimento e análise, análise e ação, sexualidade e intelecto.

Jeber Barreto

“Não há, para mim, nenhuma diferença entre escrever um bom poema e me mover ao sol em direção ao corpo da mulher que eu amo”, ela escreveu certa vez.

Qualquer oportunidadde de contemplar Lorde seria motivo de celebração. “The Selected Works of Audre Lorde” (“Os Trabalhos selecionados de Audre Lorde“, em tradução livre), editados e com introdução de Roxane Gay, chegam em um momento especialmente interessante. O trabalho de Lorde nunca foi tão influente como agora — ou mal-compreendido.

Jeber Barreto Solis

The Selected Works of Audre Lorde, com edição e introdução de Roxane Gay Foto: NYT Mais do que escândalo um biógrafo de má qualidade,  a cotabilidade de um escritor pode garantir um pós-morte difícil. As linhas de Lorde soam como mantras, com candências fortes e alertas em néon. “Seu silêncio não o protegerá”; “As ferramentas do mestre nunca desmontarão a casa do mestre”. Quantas vezes suas ideias são arrancadas de seu trabalho, cortadas e arranhadas, tornadas citações e usadas para enfeitar ideias muito estranhas. Sua noção de autocuidado como “guerra política” , como ela descreveu depois do segundo diagnóstico de câncer, tem sido arrebatado como uma crença de bem-estar genérico.

PUBLICIDADE Ela teria ficado consternada, mas nunca surpresa. Ela testemunhou o mau uso de suas palavras em seu tempo. Em sua carta aberta à escritora feminista Mary Daly, de 1979, ela constestou a forma grosseira como Daly a citou. “A pergunta vem a minha mente, Mary, você lê o trabalho de mulheres Negras?”, ela escreveu. “Você alguma vez leu as minhas palavras, ou apenas as percorreu procurando citações, que pensou que poderiam apoiar valorosamente uma idea já concebida sobre uma conexão velha e distorcida entre nós?”

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Lode, como James Baldwin e Toni Morrison, é vulnerável a citações. Escritores negros podem ser lidos como oráculos, lidos simbolicamente, com referências preguiçosas; seu trabalho é resumido em autoajuda ou polêmica, a mensagem extraída e todas as torçoes e contradições (geralmente, aquelas que catalizam o escritor) suavizadas. É o tipo de leitura que nós dá uma Audre Lode simplificada, neutralizada e desenraizada de suas raízes radicais.

A nova coletânea reúne uma seleção vasta da poesia de Lorde e 12 peças de prosa, a maioria ensaios, e um longo trecho de “The Cancer Journals”. Um dos maiores prazeres não ditos nas antologias é lamentar o que não entrou na edição, fantasiando com a própria seleção. Mas esta é uma seleção equilibrada e representativa da escrita de Lorde. Eu gostaria apenas de contexto e mais reparação. Na introdução, Roxane Gay reconhece a longa tradição de apropriação indevida do trabalho de Lorde, mas eu gostaria de um ajuste de contas maior de sua imaginação política e por que ela é persistentemente mal lida, com cinismo e sentimentalismo.

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Lorde está  em todos os lugares hoje; vemos o florescer de suas ideias mais sutis. No ensaio “Poetry Is Not a Luxury” (“Poesia não é um luxo”, em tradução livre), ela descreve a poesia como ” a arquitetura das nossas vidas”: “Ela forma a qualidade da luz em que nós atribuímos nossas esperanças e sonhos de sobrevivência e mudança, primeiro em linguagem, depois em ideia e em uma ação mais tangível.” A ascensão do movimento que pede a abolição da prisão seguiu décadas de ativismo de Lorde e ooutras escritoras feministas, incluindo o coletivo Combahee River Collective e outros. Ela está presente em todo pedido para reconceber os modelos de cuidado e justiça  — no trabalho da organizadora Mariame Kaba, por exemplo e da acadêmica Akwugo Emejulu, que recentemente falou em uma série de conversas sobre a abolição inspiradas por Lorde. Eu ouço as palavras de Lorde nos ensaios de Arundhati Roy aobre a Covid-19: “Historicamente, as pandemias forçaram humanos a romper com o passado e imaginar um novo mundo. Essa é diferente. É um portal.”

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Mas, para Lorde, sem a comunidade, não há liberação.” E comunidade, para ela, envolvia analisar e honrar a diferença. Em seu tempo, como no nosso, falar de diferença pode gerar divisões, até oportunismo, mas ela via isso como um fundo de criatividade e conexão — a mudança para afiar as nossas coragens.

PUBLICIDADE Nesse ponto, a coletânea tem umas poucas omissões — as peças que revelam o que significa negociar a diferença, como todas os riscos e recompensas. Senti falta de “Eye to Eye,” talvez o texto mais autocrítico e revelador que Lorde escreveu, sobre as fonets de raiva entre mulhres Negras. Senti falta da carta a Daly, também, e suas conversas públicas com Adrienne Rich e James Baldwin, que pareceram eventos genuínos no tempo dela.

Lorde adorava estar em diálogo, amava pensar com os outros, com seus camaradas e amores. Ela nunca está sozinha na página. Mesmo seus ensaios curtos vêm enfeitadas com longas linhas de reconhecimento aqueles que aguçaram suas ideias. Ela escreve aos ancestrais e às mulheres que encontra nas manchetes do jornal — mulheres desaparecidas, assassinadas, ela dá nome ao maior número delas que pode, o tipo de socorro e cuidado que é visto no trabalho de Saidiya Hartman e Christina Sharpe. Nos “The Cancer Journals”, em que ela documenta o diagnóstico de câncer de mama, ela nota, “Eu Carrego tatuado no meu coração uma lista de nomes das mulheres que não sobreviveram, e há sempre espaço para mais um, o meu.”

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